Moreno, magro, cerca de 1,80 metros de altura, barba grande, uma seriedade no rosto que na verdade apenas escondia um bom homem, divertido e bastante brincalhão que já beirava os 50 anos de idade. Assim era Libino Perle Guimarães, casado com dona Xolóbia Guimarães e pai de Brígido e Tertuliana. Morava com a família em uma chácara de seis hectares no bairro Nunca-te-vi, em Bela Vista, onde cultivava milho, mandioca, cana-de-açúcar, feijão e ainda sobrava tempo para criar porcos, cabras e galinhas.
Mas o que aterrorizava os moradores da região e que fazia a fama de Libino aumentar a cada dia na cidade era um fato inusitado e ao mesmo tempo assustador: Libino se transformava em Lobisomem. Era só chegar a Lua Cheia para vizinhos e moradores da localidade dormir mais cedo, proibirem as crianças de se distanciarem das casas, as fechaduras das residências eram reforçadas. Passar perto da propriedade do homem-lobisomem então, em hipótese alguma.
Algumas pessoas daquela localidade garantiam inclusive já ter visto ele no momento em que se transformava no tão temido lobo. Em constantes conversas entre os vizinhos, eles destacavam as unhas grandes, os cabelos nas orelhas e Libino, o seu sumiço em época de Lua Cheia e sua fisionomia bastante séria para justificarem que ele era mesmo o bicho que eles tanto temiam e que não cansava de uivar em volta das casas naquela fase da lua. Sua fama se espalhava e as notícias que chegavam davam conta de que um bicho grande, uma mistura de cachorro com lobo também estava marcando presença em outras áreas, inclusive com constantes sumiços de animais e ataques a alguns agricultores.
Mas apesar de todas as histórias e comentários sobre sua anormalidade, Libino levava uma vida normal, tranqüila e se relacionava com sua comunidade sem problema algum. Visitava os vizinhos, trocava informações e até tomava tereré na casa dos amigos. É bem verdade que quando ele chegava a alguma casa, não se notava a presença de nenhuma criança por perto. Os moradores do Nunca-te-vi o tratavam amigavelmente como se não soubessem das histórias que assombravam a imagem de Libino.
Entre os moradores do povoado um em especial se destacava em virtude de sua liderança junto a sua comunidade. Juvêncio Gomes, um dos mais antigos habitantes do lugar, era admirado por sua coragem e valentia, e ainda não raramente por seu método de resolver os seus problemas. Um dia Juvêncio recebeu Libino em sua chácara. A visita durou mais de uma hora, tempo bastante para jogarem bastante prosa fora. Conversaram sobre lavoura, animais, política, mas em momento algum falaram sobre a fase da lua. Era uma sexta-feira de lua cheia e o sol já começava a se esconder quando Libino se despediu do vizinho e foi embora.
- Você viu como ele é estranho? Prestou atenção nas unhas dele e como ele observa a gente? – questionou Dorotéia, esposa de Gomes.
- Eu já te falei que ele não é besta de tentar vir aqui quando estiver transformado naquele bicho. Se fizer isso resolvo da minha maneira e acabo com esse bicho, ou homem, sei lá?! – respondeu Juvêncio.
Passaram-se vários meses, mas hora ou outra sempre surgiam informações de acontecimentos e ataques envolvendo um suposto lobisomem. Em uma noite dessas, alguns moradores ao perceberem um barulho diferente e ouvirem o temido uivado, resolveram chamar a polícia.
- Pelo amor de Deus moço, tem um lobisomem passeando aqui em volta de nossa casa – esbravejava uma apavorada moradora ao pedir ajuda pelo telefone. Os policiais chegam em seguida e armam uma verdadeira operação de guerra e são recompensados algum tempo depois, quando conseguem capturar aquele estranho animal. Totalmente amarrado, o dito lobisomem é colocado dentro de um Camburão; em seguida policiais levam o bicho tão temido e prendem-no dentro de uma das celas da Delegacia. No dia seguinte, para surpresa e espanto dos policiais e do próprio delegado, quem amanheceu deitado, sem roupa nenhuma dentro daquela cela gelada era realmente Libino.
Confusos e incrédulos, policiais e delegados resolvem esconder o fato acontecido para não provocarem um desespero ainda maior nos moradores da região, e ainda optam por libertar Libino. Afinal, como justificar a prisão daquele homem; quem acreditaria na história?
Só que a história do homem-lobisomem estava prestes a terminar. O relógio já contava as primeiras horas daquele dia 11 de julho. Uma madrugada fria de Lua Cheia. Juvêncio e Dorotéia já dormiam quando escutaram um grande barulho na cozinha da casa. O cômodo ficava em uma peça separada do resto da residência. Caíram panelas e copos. O movimento também assustou animais da casa que demonstravam medo de alguma coisa. Gomes então levantou, pegou seu revólver e lanterna, e a passos lentos abriu a porta que dava até a cozinha. Ao escutar novamente o barulho focalizou prontamente sua lanterna, e ao avistar na sua frente aquele bicho enorme e esquisito não teve dúvidas e disparou quatro tiros em direção ao animal que rapidamente partiu rumo ao matagal. Certo de que havia acertado o lobisomem, ele decidiu esperar o dia clarear para procurar o bicho. Só que encontrou apenas rastos de sangue que se seguiram até a saída de sua propriedade.
O pensamento de Juvêncio agora estava é bastante confuso. A curiosidade, impaciência e preocupação já começavam a tomar conta de Gomes, quando sua mulher então escuta a notícia na Rádio Local de que o vizinho do casal, Libino, acabara de ser encontrado morto na cidade de Bella Vista, no Paraguai, município fronteiriço com Bela Vista Brasil. Segundo a informação divulgada pela Polícia Militar, Libino Perle Guimarães morreu em decorrência de três disparos de arma de fogo. O autor, e o que o motivou a praticar o crime, ainda hoje é desconhecido.